Adultos, Parem de Brincar de Imaginar

Angello Lopez em Unsplash
Nota do Editor: 

Este artigo é um excerto adaptado do livro “Living Life Backward: How Ecclesiastes Teaches Us to Live in Light of the End” [Vivendo para Trás: Como Eclesiastes nos Ensina a Viver na Luz do Fim”, de David Gibson (Crossway).

Se refletirmos um pouco a respeito, veremos que gastamos nossas vidas tentando escapar das restrições de nossa condição de criaturas. Abrir nossos olhos para esta realidade é um avanço significativo. Ser um ser humano é ser uma criatura, e ser uma criatura é ser finito.

Não somos Deus. Não estamos no controle e não viveremos para sempre. Vamos morrer.

Mas evitamos esta realidade brincando de imaginar.

Mundo de Repetições

Vamos imaginar que, se conseguirmos a promoção, ou vermos a nossa igreja crescer, ou criarmos bons filhos, nos sentiremos relevantes e deixaremos um legado duradouro. Vamos imaginar que, se mudarmos de emprego ou migrarmos para o sol, não sentiremos o tédio monótono e a ordinariedade da vida.

Vamos imaginar que, se nos mudarmos para uma nova casa, seremos mais felizes e nunca mais iremos querer nos mudar. Vamos imaginar que se terminarmos um relacionamento e começarmos um novo, nunca mais nos sentiremos presos. Vamos fingir que, se fôssemos ou não fôssemos casados, ficaríamos satisfeitos.

Vamos imaginar que, se tivéssemos mais dinheiro, estaríamos satisfeitos. Vamos imaginar que, se terminarmos de lavar a roupa e a pilha de fraldas sujas, fizermos as compras que estão em nossas listas, levarmos as crianças à escola e sobrevivermos as noites ocupadas desta semana, a próxima será mais tranquila.

Vamos imaginar que o tempo está sempre do nosso lado, para fazer as coisas que queremos fazer, e nos tornarmos as pessoas que queremos ser. Vamos imaginar que podemos quebrar o ciclo de repetição e finalmente chegar em um mundo livre do cansaço.

Ansiamos por mudanças em um mundo de repetição permanente, e sonhamos como poderíamos interromper tal repetição. Ansiamos por vidas de permanência em um mundo em constante mudança, e nos esforçamos para alcançar a permanência. Passamos nossas vidas harmonizando o melhor de nós mesmos com um futuro diferente, o qual prevemos será mais gratificante

Em tudo isso, tentamos tornar permanente aquilo que não é para ser permanente (nós), e pela constante mudança, tentamos controlar aquilo que não é para ser controlado (o mundo). As estações do ano e os ciclos naturais se contentam em ir e vir, mas nós suamos e labutamos, imaginando que não será assim conosco.

Pare de Fingir

Eclesiastes nos incita a deixar esta fantasia para trás de uma vez por todas, e adotar uma maneira melhor de pensar. Paremos de brincar de imaginar e, em vez disto, deixemos a história e o mundo criado serem nossos mestres. Reflitamos sobre as gerações que viveram antes de nós. Observemos as marés, as estações e os padrões que Deus entrelaçou no próprio tecido da criação.

As coisas se repetem continuamente, portanto, é hora de aprender que a vida tem uma repetição integrada, da qual não devemos tentar escapar. Os próprios ritmos do mundo apontam para o que significa fazer parte da ordem criada como seres humanos. Paremos de pensar que o significado, a felicidade e a satisfação estão na novidade. O que há de novo não é realmente novo, e o que nos parece novo logo se tornará velho.

Paremos de pensar que o significado, a felicidade e a satisfação estão na novidade. O que há de novo não é realmente novo, e o que nos parece novo logo se tornará velho.

C. S. Lewis capturou a essência deste ponto em seu livro “Cartas de um diabo ao seu aprendiz“. Um diabo mais velho, Morcegão, está escrevendo para seu sobrinho, Cupim, para dar conselhos sobre como fazer os cristãos se afastarem do Inimigo (Deus). Morcegão aconselha Cupim sobre o constante desejo da humanidade de experimentar algo novo:

“O horror da Mesma Coisa de Sempre é uma das mais valiosas paixões que produzimos no coração humano – uma fonte inesgotável de heresias na religião, de insensatez nos conselhos, de infidelidade no casamento e de inconstância na amizade”.

Prazer na Novidade

Deus fez com que as mudanças e as novidades sejam agradáveis ​​aos seres humanos. Mas, Morcegão diz que, por Deus não querer que suas criaturas “façam da mudança (bem como da comida) um fim em si mesma, ele contrabalançou o amor pela mudança neles com um amor pela permanência”.

Mudança e constância são os dois pesos de equilíbrio na gangorra da experiência humana, e Deus deu à humanidade os meios para desfrutar de ambas, modelando o mundo com ritmo. Nós amamos que a primavera nos pareça nova; nós amamos que seja primavera novamente. E é neste exato momento que o diabo começa a trabalhar. Morcegão explica:

“Bem, assim como separamos e exageramos o prazer de comer produzindo a glutonaria, separamos este prazer natural pela mudança e o transformamos em uma demanda por novidade absoluta. Essa demanda é inteiramente obra nossa. Se negligenciarmos nosso dever, os homens ficarão não apenas contentes, mas também movidos pela mescla da novidade e da familiaridade dos flocos de neve em janeiro deste ano, do amanhecer nesta manhã, e do pudim de ameixa neste Natal. As crianças, até que as tenhamos ensinado melhor, ficarão perfeitamente felizes com uma rodada sazonal de jogos em que jogar amarelinha se segue a pular corda tão naturalmente quanto o outono se segue ao verão. Somente por nossos esforços incessantes é que a demanda por mudanças infinitas ou não-rítmicas é mantida”.

Satisfação Efêmera

É exatamente isso que o Pregador de Eclesiastes quer que identifiquemos. Onde estamos insatisfeitos com a repetição rítmica de nossas vidas, é porque estamos fingindo que as coisas não deveriam ser assim para nós, na qualidade de seres humanos. Querer mudança infinita – em outras palavras, “ganhar” alguma coisa – é querer escapar dos limites da existência comum e de alguma forma chegar a um mundo onde, por um lado, a repetição não ocorre, e por outro, a permanência sim.

Mas nenhuma destas é possível.

À medida que procuramos algo novo debaixo do sol, procuramos por novidade absoluta, que não existe. Como Morcegão nos lembra: “o prazer da novidade é, por sua própria natureza, mais sujeito do que qualquer outro à lei dos retornos reduzidos”.

Quando cremos que finalmente fizemos uma mudança decisiva em nossas circunstâncias, em breve, quereremos mudar alguma outra coisa. Seja lá o que for que cremos que havemos ganhado, logo isso desaparecerá da terra como uma neblina matinal – e nós iremos junto. Parte de aprender a viver é simplesmente aceitar esta realidade.

O Pregador, em Eclesiastes, nos ensina aquilo que devemos – e que não devemos – esperar da vida. Ele não está só dizendo que não há ganho após termos corrido atrás do vento; ele está insistindo, que em primeiro lugar, não há necessidade de correr atrás do vento. Não há ganho final a ser obtido debaixo do sol, e esta é precisamente a questão.

Não há necessidade de se tentar buscar ganho debaixo do sol.

 

 

Traduzido por João Pedro Cavani

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