4 Considerações Cristãs sobre o Carnaval

Não sem motivos, o período do Carnaval é certamente muito desafiador para os cristãos. Expostos aos mais diversos apelos, de uma sexualidade hiper exposta aos bloquinhos de rua, nos vemos rodeados de uma cultura permissiva e tentadora.

Ainda que muitos cristãos viagem neste período para acampamentos e retiros espirituais, ou mesmo fiquem em casa ou viagem com suas famílias para longe da bagunça, é importante que façamos algumas considerações sobre o Carnaval.

1. Ele está no calendário e não há muito o que fazer quanto a isso, senão aproveitá-lo corretamente

Não estou dizendo para adotarmos uma postura indiferente quanto ao que acontece neste período, mas haverá Carnaval no Brasil gostando você ou não, querendo ou não. Aliás, sei de muita gente que ora para chover no Carnaval e, com isso, atrapalhar a curtição de algumas pessoas. Até pode chover, mas quem quer curti-lo dará um jeito. Parece que chuva tem sido mais pretexto de crente para não ir à igreja do que de folião para não sair no Carnaval.

Quanto à época do ano, a data em si não é o problema, mas o que muitos fazem nela. O problema não é com o calendário, mas com o mal uso dele, até porque podemos aproveitá-lo para tantas coisas boas pois estamos falando de uma pausa bem longa na agenda.

Podemos até discutir se temos ou não muitos feriados em nosso calendário, mas, ainda que muita gente saia para a rua com os bloquinhos paulistanos, siga atrás de um trio elétrico em Salvador, curta a praia no Rio ou, quem sabe, vá para um retiro espiritual, ainda assim estamos falando de 4 dias em que podemos fazer uma pausa na rotina, dormir, passear, fazer coisas em família, curtir amigos e irmãos em Cristo, e tantas outras coisas que, às vezes, em um final de semana corrido não conseguimos fazer.

Como costumo dizer, aproveite o Carnaval que seja para “fazer nada” com excelência e para a glória de Deus.

2. O Brasil não deveria começar apenas após o Carnaval

Ouvimos constantemente o oposto desta frase do mercado financeiro, da faculdade, do comércio e de nossas igrejas. Nada mais lamentável.

Considerando que existem locais em que o pré-carnaval começa em janeiro, algumas pessoas, cidades, repartições públicas, órgãos do governo e igrejas, começam suas atividades efetivamente apenas após o Carnaval. Pela argumentação, parecem desperdiçar ou omitir oportunidades, esforços e recursos até que o Carnaval passe, quando então tudo começará a funcionar.

Reconheço que o Carnaval gira milhões e milhões de reais entre mercadorias, serviços, hotelaria, restaurantes etc. Mas este não é o ponto. A questão não é o quanto o Carnaval rende para alguns nichos do mercado, mas o quanto nós brasileiros não levamos a sério este período inicial do ano.

Creio que deveríamos levar a vida um pouco mais a sério e com responsabilidade, seja nos estudos, no trabalho, vida pessoal ou igreja em que congregamos.

Não é por acaso que nosso povo é eventualmente chamado de preguiçoso. A figura do Zé Carioca, da Disney, parece retratar bem a mentalidade brasileira sobre a vida ser uma eterna curtição. Veja: somos o país dos memes, em que tudo vira piada. O Carnaval parecer ser apenas mais uma expressão deste nosso não levar as coisas muito a sério pois, no fim das contas, tudo dará certo. Se não der, é porque o fim ainda não chegou.

Lembre-se, devemos fazer tudo para a glória de Deus (1 Co 10.31), não apenas porque temos senhores humanos (Cl 3.22-24).

3. Sim, a festa da carne. Mas em que isso te assusta?

É verdade, no Carnaval a mídia, as pessoas, as conversas e tantas outras coisas se tornam muito mais sensuais, permissivas e vulgarizadas. Na maioria esmagadora dos casos, é uma verdadeira celebração da promiscuidade, da devassidão moral, da busca pelo prazer a qualquer custo e da forma mais fácil e rápida.

Antes do feriado começar, as conversas no trabalho ou faculdade passam muito pelas coisas loucas que alguns planejam fazer. De beijar muito, transar com vários(as), beber até cair, dançar como se não houvesse amanhã, e por aí vai, há uma predisposição em muitas pessoas de fazerem do Carnaval seu momento de extravaso, de assumir seu lado perverso. Após o feriado, lá se vão os relatos. Quanto pior ou mais louca foi uma pessoa, mais ela aproveitou o Carnaval.

Perguntinha básica: Em que isso te assusta?

Em um mundo que jaz no maligno (1 Jo 5.19), que é habitado por pessoas que estão mortas em seus próprios pecados, distantes de Deus e sem o temor dele diante de seus olhos, vivendo para satisfazer as vontades da carne (Ef 2.1-3), o que você esperaria de melhor? O Carnaval é só mais uma oportunidade para a expressão e promoção da carnalidade.

O que me assusta, no entanto, é ver alguns cristãos cabisbaixos e envergonhados diante de amigos dizendo que no Carnaval ficaram em casa ou foram para um retiro espiritual. Parecem lamentar por não terem curtido o feriado tão intensa ou prazerosamente como seus amigos.

Me assusta também ver que muitos cristãos que rejeitam o Carnaval (e com razão), não são igualmente atentos e críticos a tantas outras concessões que fazem em suas vidas, como: linguagem obscena, compartilhar de sua senha da Netflix com amigos, postar fotos sensuais em suas redes sociais, usar softwares piratas, acessar pornografia, mentir no trabalho ou ter olhares impuros para uma pessoa do sexo oposto.

Amigos, nosso desafio é não nos contaminarmos e nos conformarmos com este mundo e seu sistema anticristão. A luta é pelo quão distante de tudo isso devemos ficar para não nos sujarmos, não pelo quão perto conseguimos chegar sem nisso tudo cairmos. Lembre-se, está mais seguro quem fica mais distante da beira do abismo, não quem é capaz de se equilibrar perto dele.

4. Não é uma oportunidade para o evangelismo fazendo-se semelhante ao não cristão ao sair em bloquinhos, com abadás ou seja lá o que for de “gospel” que se use, no meio da bagunça

Como já ouvi este argumento. E como ele continua não fazendo qualquer sentido. Lembro-me até da primeira vez que noticiaram uma igreja saindo no desfile de Carnaval de sua cidade e ganhando como bloco mais animado.

Você não precisa sair em um bloco de Carnaval para demonstrar o quão livre ou prazerosa é a vida cristã. Na verdade, me parece que é a separação e distância destas coisas que demonstram realmente nossa liberdade e satisfação em Cristo. Liberdade cristã não é poder fazer o que quiser, mas não ser obrigado a fazer o que antes o escravizava.

Quanto ao evangelismo, é interessante perceber que a igreja e/ou indivíduo não compartilham da fé em Cristo com ninguém o ano inteiro, nem mesmo com seu colega de faculdade ou trabalho, mas quer sair pilhado no Carnaval, para “ganhar almas para Jesus”.

Não estou dizendo que Deus, em sua infinita graça e amor, não possa salvar pessoas neste contexto (Ele certamente o faz, como conhecemos várias histórias), mas a questão é se valer de toda uma estrutura anticristã, de promoção da promiscuidade e paganismo, de conivência com o pecado, para tentar colocar algo de Jesus ali no meio.

Procurando ser justo, isso parece ser diferente daqueles que evangelizam nos becos, mocós e prostíbulos. Em muitos destes casos, são cristãos que adentram ambientes com os quais não querem ter relação alguma, exceto partilhar da fé em Jesus com aqueles que estão encarcerados pelo pecado nestes contextos perversos. São missionários, não foliões.

Liberdade cristã não é poder fazer o que quiser, mas não ser obrigado a fazer o que antes o escravizava.

Os argumentos dos foliões cristãos são bem diferentes dos cristãos que entendem sua responsabilidade cristã como professores universitários, políticos, funcionários públicos, engenheiros etc., os quais desejam real e rotineiramente resplandecer a luz de Cristo em um mundo em trevas, no meio de uma geração pervertida e corrupta.

E mais, não adianta citar os argumentos hermeneuticamente falhos e tendenciosos do “fiz me fraco para com os fracos”, de Paulo (1 Co 9.19ss) e os relatos bíblicos de Jesus comendo com pecadores e conversando com prostitutas. Em tais passagens é nítida a distância que Paulo e Jesus mantiveram da realidade do pecado em que estavam envolvidos seus interlocutores. Envolvimento não significa praticar ou ser conivente com as coisas que tais pessoas praticavam.

Muitas outras considerações poderiam ser feitas, mas entendo que estas 4 apontam para realidades que normalmente não atentamos quando falamos sobre e/ou criticamos o Carnaval.

Aproveite bem este período, para a glória de Deus.

Em Cristo e por Cristo,

Hélder Cardin

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